ST. VINCENT, UMA ILHA

St. Vin­cent é uma ilha. E essa afir­mação é dupla­mente correta.

Local­izada no Caribe, a ilha vul­cânica de Saint Vin­cent é a maior da região onde se local­iza, entre as ilhas de Grenade e Santa Lucia, e foi dis­putada por ingle­ses e france­ses no século XVIII. Ao final, quem ficou com a região foi a Ingletarra.

Por outro lado, St. Vin­cent é tam­bém o pseudôn­imo de Annie Clark, can­tora amer­i­cana que já fez parte do super­lotado Poly­phonic Spree e da banda de apoio de Suf­jan Stevens antes de lançar sua própria turma. A moça tam­bém é uma ilha – de cria­tivi­dade, cer­cada das mais absur­das e lin­das refer­ên­cias por todos os lados.

Não con­heço muito a respeito da primeira, mas a segunda, posso ates­tar do alto da exper­iên­cia de ter escu­tado três álbuns de sua car­reira, que se trata de uma St. Vin­cent de vis­i­tação impre­scindível. Tal­en­tosís­sima gui­tar­rista, de voz açu­carada e uma cabeça com­ple­ta­mente cor­romp­ida e doen­tia, ainda que não perca nunca a suavi­dade, Clark leva o St. Vin­cent a lugares absur­dos com sim­pli­ci­dade e habil­i­dade. Em “Strange Mercy”, seu mais novo disco, ter­ceiro de uma car­reira curta e vito­riosa, o lado com­pos­i­tora da moça explode em uma série de canções inspi­radís­si­mas, com letras rev­e­lando todo seu lado esquisitão em cima de estru­turas pouco con­ven­cionais, ape­sar da roupagem pop que reco­bre tudo com cuidado teatral.

Assim como em “Actor”, acla­mado álbum de 2009 que alçou St. Vin­cent ao topo da música indie, Annie Clark deixou que um lado sorum­bático fizesse par per­feito com a doçura em suas novas com­posições, sem­pre gan­hando um pon­tinho a mais nos detal­hes – seja uma gui­tar­rinha per­dida no meio de “Chole In The After­noon”, a batid­inha ligeira­mente que­brada da faixa-título ou o sin­te­ti­zador neb­u­loso de “Sur­geon”. Clás­si­cos ime­di­atos surgem em “Strange Mercy”, como “Cruel”, uma peça digna de prêmio com suas gui­tar­ras barul­hetas recor­tadas, uma história esquisita que fica nas entre­lin­has e o refrão abso­lu­ta­mente viciante, e “Cheer­leader”, uma música som­bria e linda em todos os aspectos.

Tudo que diz respeito a St. Vin­cent, desde seu visual pouco comum até os cam­in­hos intrin­ca­dos que sua música per­corre, faz dela um alento em meio à pas­ma­ceira de banda que parece com outra banda, gente que parece outra gente, sons que pare­cem out­ros sons. Maior, mais bonita e mais bril­hante do que aquela do Caribe, St. Vin­cent é uma ilha de cria­tivi­dade e orig­i­nal­i­dade fin­cada no meio de um mar de você já ouviu isso antes.

*Texto pub­li­cado ante­ri­or­mente no dia 08 de novem­bro de 2011, no site Style-A-Holic — leia a ver­são orig­i­nal aqui.

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Todo mundo tem que ouvir

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Eu já tive o prazer de assi­s­tir ao vivo algu­mas das min­has ban­das preferi­das. Entre elas estão Pearl Jam, Radio­head, Arcade Fire, Paul McCart­ney, Queens of the Stone Age, Bad Reli­gion, Sil­ver­chair, Franz Fer­di­nand, Arc­tic Mon­keys, Rap­ture, Strokes e mais uma pan­cada de out­ras tão legais quanto. Mas ainda há espaço para aguardadís­si­mas novi­dades nesse rol. Entre elas, a banda The Decem­berists se destaca. Com o lança­mento deste We All Raise Our Voices To The Air, álbum duplo gravado em vários shows da turnê do disco The King Is Dead pelos EUA, a von­tade de ver esses amer­i­canos ao vivo cresce con­sid­er­av­el­mente. Um belís­simo reg­istro da ener­gia potente que a banda de Colin Meloy despeja sobre o público a cada apre­sen­tação. Imperdível.

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Ópio no Café: contos e crônicas

- Sem resposta -

Essa era você em 1996, apaixon­ada. Por mim. Ou pelo que eu rep­re­sen­tava na época. Ou pela forma que você me enx­er­gava. Essa era você, com suas frases meio des­en­con­tradas, ten­tando con­cate­nar as ideias da mel­hor forma para dizer o quanto me que­ria por perto, como son­hava todas as noites comigo, como imag­i­nava me encon­trar pela rua a cada vez que colo­cava os pés pra fora de casa. Essa era você, ingênua e per­dida entre sonho e real­i­dade, com a letra tão bem desen­hada que pare­cia ter treinado anos e anos a caligrafia ape­nas para con­ce­ber aquela carta.

Eu a encon­trei per­dida entre papéis da minha mudança. Mais uma mudança em minha vida, mais um novo momento. Talvez eu pudesse estar dividindo mais esse movi­mento da minha existên­cia com você. Pode­ria estar do seu lado agora, encaixotando livros e dis­cos e revis­tas e memórias que nem pre­cis­ariam de caixas, porque têm espaço certo nessa caix­inha cheia de cabe­los aqui em cima do pescoço. Talvez você estivesse espir­rando junto comigo ao abrir livros vel­hos, ao alcançar aque­las fan­tasias de car­naval de quase vinte anos de idade que ficam lá em cima do armário, ou os vel­hos tênis de jogar fute­bol com mais tempo de mofo do que de quadra.

Mas não. Releio sua carta uma, duas, três vezes, e tento me lem­brar se fiz isso na época, se cheguei mesmo a ler, nem que fosse uma só vez, de cabo a rabo. A memória pode me trair em algum momento, mas acred­ito ter escon­dido em algum lugar o enve­lope e nunca mais me lem­brei onde estava, porque a carta estava aban­don­ada, soz­inha, sem um lugarz­inho pra dormir. Mal dá pra ler as ini­ci­ais do seu descon­hecido nome lá no final, espremido pelo con­teúdo enorme e apaixon­ado, pelos elo­gios der­ra­ma­dos que iam da cor do meu cabelo à minha falta de mod­és­tia no time de bas­quete da escola. Releio sua carta uma vez mais, sem­pre com aquele sor­riso bobo no rosto, e tento imag­i­nar quem seria você hoje.

Porque eu não sei quem você é. Não sei se um dia vou saber. Não sei nem porque nunca respondi essa carta. Gostaria de ter uma ideia, uma lem­brança que fosse. Eu ignorei solen­e­mente o seu sen­ti­mento, virei as costas para sua ati­tude de pegar em armas — a saber, cane­tas col­ori­das, papel de carta da Hello Kitty e alguns ade­sivos que vin­ham como brinde em revis­tas para ado­les­centes — e ir à luta, enfrentar o descon­hecido campo minado que é o sen­ti­mento alheio. Vai ver o ingênuo fui eu. Na ver­dade, era eu o ser per­dido entre sonho e real­i­dade. E, de tão per­dido, não me per­miti tentar.

Ainda que eu nunca tenha te visto, ainda que eu só soubesse o seu endereço, que se perdeu junto com o enve­lope, hoje você pode­ria ser alguém. Jus­ta­mente esse alguém que me falta. Mas eu nunca te respondi. E agora, com essa velha carta amare­lada na mão, des­cubro que sou eu a pes­soa sem respostas.

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Arcade Fire, ao vivo, há 7 anos.

Dando uma volt­inha pelo antigo Mis­quili­nas Vari­adas, meu primeiro blog lá no .zip.net, encon­trei por acaso meu texto sobre o show do Arcade Fire, em out­ubro de 2005, no Tim Fes­ti­val do Rio de Janeiro. Nele eu per­gun­tava o que seria dos out­ros shows, depois de ter viven­ci­ado aquela exper­iên­cia. Man­tenho o mesmo sen­ti­mento até hoje, intacto, de ter vivido um momento histórico. E repro­duzo o relato aqui, sete anos e muitos out­ros shows depois, porque me parece apro­pri­ado revis­i­tar memórias tão praze­rosas quanto essas.

- Segunda-feira, 24 de out­ubro de 2005.

The Arcade Fire — TIM Festival

- Good evening. We’re The Arcade Fire, from Montreal.

Não diga! Por um min­uto, achei que esses 7 inte­grantes bem vesti­dos, entre roupas soci­ais, ter­nos e vesti­dos rebus­ca­dos, empun­hando alguns instru­men­tos estran­hos e deixando out­ros ainda mais difer­entes ali, por perto, eram pes­soas da téc­nica… ou o Wilco, quem sabe.
Ah, até parece, é claro que todo mundo já sabia: o tão esper­ado show, que andou roubando a cena de grandes ban­das em fes­ti­vais ao redor do mundo, iria final­mente dar o seu start.

Um garoto com cara de nerd, ruiv­inho, empun­hando uma espé­cie de tam­bor em uma mão e uma daque­las meia-luas na outra, de repente toma as rédeas da situ­ação, quando todo mundo pare­cia pronto. Aliás, todos com pinta de sujeitos bem sossega­dos, daque­les que soltam no máx­imo uma sor­ris­inho durante a apre­sen­tação. Pois bem… quando o tal ruivo ini­ciou o show com o hino Wake Up (música que Bono Vox escol­heu para tocar no aque­c­i­men­tos dos shows do U2, pra galera já começar com o astral lá em cima. Dizem que esse Bono entende das coisas, sei lá…), o palco do TIM Lab ameaçou desabar. A banda estava lig­ada em 220 volts.

Um coro de 2000 vozes entoou o grito “Ooooh, ooooh, ooooh ooooh ooooh ooooh ooooh, ooooh, ooooh ooooh ooooh ooooh ooooh, ooooh, ooooh ooooh ooooh ooooh ooooh!” e uma avalanche de sons, melo­dias e tex­turas começou a tomar conta da tenda. Os 7 inte­grantes pare­ciam querer dis­putar com a platéia em altura do grito e em empol­gação. Nunca havia visto uma pre­sença de palco tão avas­sal­adora quanto a dos canadenses do Arcade Fire, que, a despeito do que cos­tuma ser feito pelas ban­das ditas comuns, não pos­suem uma colo­cação ou um instru­mento fixo. Tro­cam a cada música, a cada maluquice que inven­tam, a cada som que pre­cisa ser tirado de um lugar qual­quer — e, acred­ite, eles irão tirar esse som e você ficará embas­ba­cado com isso.

A potên­cia da banda arreba­tou a todos com Wake Up e ter­mi­nou de con­quis­tar a turma com Neigh­bor­hood #2, que nos primeiros acordes já arran­cou gri­tos deses­per­a­dos de vários pre­sentes. Enquantro can­tava sobre seu irmão mais velho com vigor incomum, o vocal­ista (entre out­ras coisas) Win But­ler obser­vava o público brasileiro acompanha-lo com esmero e não con­tinha a sur­presa. Nem eu, que imag­i­nava que a maio­ria dos pre­sentes ali que­ria era ver o Wilco, banda com bagagem no mín­imo 5 vezes maior que a dos canadenses. A sin­er­gia entre platéia e banda era magia pura. Amedrontador.

A par­tir daí, o show seguiu essa tônica: músi­cas can­tadas a plenos pul­mões pela platéia, músi­cos empol­ga­dos no palco e uma per­for­mance que eu nunca vira igual na minha (curta, mas bem vivida) vida de apaixon­ado por música. A banda fazia mis­éria lá em cima, com as tro­cas con­stantes de instru­men­tos e a mar­avil­hosa mania de tirar sons de capacetes de moto, fer­ra­gens e piso do palco, meia-lua no vio­lão ou na gui­tarra e até uma escal­ada na torre de ilu­mi­nação pelo piradasso Willian But­ler. O loir­inho amalu­cado subiu lá só pra bater com as mãos no lado do palco, no meio de Rebel­lion, e dar um som difer­ente pra canção. Depois disso ele pirou, se jogou no chão, ficou deitado um tempo e voltou mais nor­mal uns minutin­hos depois. A galera foi à loucura.

Entre Crown of Love, Haiti e out­ras grandes canções do acla­mado primeiro e único disco, Funeral, o Arcade Fire aru­mou tempo pra uma ver­são sim­pática e empol­gante de Aquarela do Brasil e uma cover do New Order, “Age of Con­sent”. Tudo isso sob olhares abso­lu­ta­mente hip­no­ti­za­dos de uma platéia sedenta pelo rock alter­na­tivo triste e empol­gante do grupo. A ener­gia era palpável, con­ta­giava mesmo quem estivesse ali ape­nas de pas­sagem. Infe­liz­mente, nada é per­feito: a banda econ­o­mi­zou em música, tavez sob exigên­cia da orga­ni­za­ção do fes­ti­val, e não trouxe o tão aguardado bis. Além disso, foi sen­tida a ausên­cia da grande bal­ada da banda, In the Back­seat. Uma pena.

Ao final da apre­sen­tação, os ros­tos ilu­mi­na­dos pela feli­ci­dade se espal­havam entre a platéia e o palco. A mem­o­rável Rebel­lion, e seu coro “Lies, Lies!”, fechou com maes­tria o con­certo, digo, a exper­iên­cia. É, exper­iên­cia! Porque se tem uma coisa que não me sai da cabeça é o olhar per­dido das pes­soas ao final do show, como se tivesse ocor­rido ali algo que ninguém nunca mais se esque­ce­ria. E é a pura ver­dade: uma exper­iên­cia musi­cal e emo­cional, de ener­gia con­ta­giante e impos­sível de não se deixar levar. 10 músi­cas, 1 hora de show, e momen­tos pra guardar para o resto da vida.

Um con­certo de rock nunca mais será o mesmo para mim. Não depois do Arcade Fire.

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Voa, Noel Gallagher!

Noel Gal­lagher não pre­cisava provar nada pra ninguém. A frente do Oasis, foi uma das maiores ban­das da história do rock inglês, com venda­gens absur­das, sucesso extrap­olando lim­ites e polêmi­cas que faziam com que ele e o irmão, Liam, estivessem sem­pre em voga – seja pelo bem ou pelo mal. Depois que a banda acabou, o irmão mais novo recrutou os out­ros mem­bros que sobraram e fun­dou o Beady Eye, lançando um disco bas­tante medi­ano em poucos meses. Tarim­bado, com mais de 20 anos de car­reira e sem pressa para provar seu valor (algo que, pelo visto, Liam pre­cisava deses­per­ada­mente fazer e, ops, acho que fal­hou), Noel esperou. E quem espera se dá bem.

Mesmo sem pre­cisar provar seu tal­ento, Noel parece ter se esforçado um bocado para que ninguém tivesse dúvida de quem é que dava as car­tas no Oasis. Assu­mindo o nome de tra­balho Noel Gallagher’s High Fly­ing Birds, o inglês lançou o álbum de mesmo nome há poucos dias e superou todas as expec­ta­ti­vas, mesmo de quem, como este que vos escreve, real­mente acred­i­tava que o cara estava preparando um belo disco.

Quando colo­camos o álbum de estreia do Beaady Eye e este “High Fly­ing Birds” em per­spec­tiva, con­seguimos con­ce­ber bem as partes que envolviam o Oasis e quem era respon­sável pelos grandes momen­tos da banda (e o respon­sável pelas partes chatas). O tra­balho solo do Gal­lagher mais velho é lindís­simo, traz momen­tos abso­lu­ta­mente inspi­radores, às vezes pre­tendendo a sim­pli­ci­dade e em out­ras se val­endo da pos­si­bil­i­dade da grandiosi­dade, tudo em prol da beleza musical.

Entre ver­sões prati­ca­mente acús­ti­cas, out­ras mostrando afi­nação com­pleta com a banda, e faixas que recebem um trata­mento orquestrado de fal­tar fôlego pra quem escuta, “High Fly­ing Birds” mostra em suas dez faixas tudo que Noel é capaz de fazer com um pouco de tempo para tra­bal­har e sem dis­trações desnecessárias, como brigu­in­has famil­iares, quebra-quebra de quar­tos de hotéis e pé enfi­ado nas dro­gas. Há em várias músi­cas do disco o DNA de grandes canções do Oasis, mas Noel con­segue ainda assim pas­sar como se tivesse ape­nas começando uma nova car­reira, como se estivesse atur­dido pela neces­si­dade de mostrar serviço para um público que não o conhece.

A belís­sima “If I Had A Gun” exala uma aura meio “Won­der­wall”, mas logo faz com que ela se dis­sipe, gan­hando a per­son­al­i­dade de seu tra­balho solo rap­i­da­mente – o mesmo acon­tece com a empol­gante “The Death Of You And Me”, que pos­sui traços indis­solúveis de “The Impor­tance of Being Idle”, um dos últi­mos grandes suces­sos da banda de Manchester.

Mesmo tendo destaques abso­lu­tos em sua track­list, como a sen­sa­cional “AKA… What A Life!”, música de pegada mar­cante e refrão para ser entoado em está­dios, ou “Stop The Clocks”, bal­ada fenom­e­nal que fecha o álbum em grande estilo, Noel vence mesmo é pelo con­junto da obra.

São dez música irre­tocáveis, cada uma do seu jeito, tor­nando a tarefa de excluir qual­quer uma delas sim­ples­mente impos­sível. Não dá pra imag­i­nar “High Fly­ing Birds” sem o refrão de “Dream On”, sem a lev­ada sóbria de “AKA… Bro­ken Arrow”, sem o clima mel­nacólico de “(I Wanna Live In A Dream In My) Record Machine” ou o anda­mento mod­erno e com cara de anos 70 de “(Stranded On) The Wrong Beach”. Não à toa, até mesmo os lados-b lança­dos ofi­cial­mente por Noel são dig­nos de nota, e caberiam com per­feição no disco.

Noel Gal­lagher não pre­cisava mesmo provar nada pra ninguém. Pode­ria encer­rar a sua car­reira depois do fim do Oasis e ainda assim seria con­sid­er­ado um dos maiores de seu tempo. Mas não. Preferiu agir como se pre­cisasse de um recomeço, embas­ba­cou o mundo mais uma vez com um disco fan­tás­tico e colo­cou de vez o irmão no bolso. Noel esperou, se deu bem, e agora curte tran­quil­a­mente o sabor do sucesso voando lá no alto.

*Texto pub­li­cado ante­ri­or­mente no dia 24 de out­ubro de 2011, no site Style-A-Holic — leia a ver­são orig­i­nal aqui.

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Todo mundo tem que ouvir

Clique na capa e faça o download

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Mike Hadreas coloca a más­cara de Per­fume Genius e o mundo de repente parece um lugar habitado por pes­soas que querem alguma coisa a mais da vida. Vagaroso, denso, com uma carga dramática que é der­ra­mada sem dó a cada vez que um dedo pres­siona a tecla de um piano, o Per­fume Genius traz um deleite para os ouvi­dos em seu segundo disco, Put Your Back N 2 It, a ser lançado ofi­cial­mente no final de fevereiro. Recomendo o down­load e uma audição cuida­dosa e refi­nada, a despeito de pos­síveis polêmi­cas que envolvam o nome do artista amer­i­cano (se ficou curioso, corre pro Google). Vai na fé que o rapaz é bom.

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CULTS E A MÁQUINA DO TEMPO

De que tempo veio o Cults? De que ano, de que década, de que era?

A per­gunta não é fácil de se respon­der. Nem mesmo os próprios inte­grantes da banda sabem dire­ito de onde veio esse climão vin­tage que o grupo coloca em cada uma de suas músi­cas. Não é bem anos 60, não chega a ser anos 70 mas tam­bém não dá pra dizer que não tem nada de anos 50 por ali. Os anos 80 gan­ham uma certa atenção em algu­mas pas­sagens, mas é impos­sível afir­mar sim­ples­mente que o grupo novaiorquino faz um revival da década. Com seu primeiro álbum debaixo do braço, o elo­giado “Cults”, a banda, que na ver­dade é uma dupla for­mada pelo casal de namora­dos Made­line Follin e Brian Obliv­ion e que ganha a pre­sença de mais três mem­bros em suas apre­sen­tações ao vivo, parece ter saído de algum pas­seio cul­tural maluco pelas décadas a bordo de uma espé­cie de máquina do tempo. E a mis­tura, que pode pare­cer estranha, na ver­dade dá certo.

Ouvir o Cults é mer­gul­har em uma atmos­fera difer­ente. A voz de Made­line, mul­ti­pli­cada com graça em estú­dio, parece trazer uma certa névoa atem­po­ral para a música da banda. A parte instru­men­tal teima em ficar entre os anos 60 e os 80, mis­tu­rando ele­men­tos aqui e ali para que as músi­cas pareçam desconec­tadas de uma só época – e não há nada mais mod­erno do que pare­cer antigo, certo? A parte rít­mica das músi­cas de “Cults” é sim­ples, mas feita com cuidado o bas­tante para que remeta a clás­si­cos que eu e você já escu­ta­mos em algum lugar e temos pre­sente com bas­tante força no sub­con­sciente, como percebe­mos em faixas como “You Know What I Mean” e “Never Saw The Point”.

Aliás, toda a força pop do grupo amer­i­cano se rasga logo no começo de “Cults”, com a dupla de ouro “Abducted” e “Go Out­side”, que abrem o disco e já deixam bem claro exata­mente o que o Cults está fazendo nesse mundão. Só não dá pra saber exata­mente de que época eles vieram. Esta é uma tarefa um pouco mais com­pli­cada, que você vai desi­s­tir de ten­tar adi­v­in­har e resolver se diver­tir com a música da banda assim que começar a ouvir o álbum.

*Texto pub­li­cado ante­ri­or­mente no dia 13 de out­ubro de 2011, no site Style-A-Holic — leia a ver­são orig­i­nal aqui.

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Ópio no Café: crônicas e contos

Como adi­antei no meu último texto de 2011, a col­una Ópio no Café está sem casa. A Para­doxo, onde residia há quase seis anos, infe­liz­mente deu seu último sus­piro nos últi­mos dias de dezem­bro. Agora, é por aqui que ela vai ficar. Deva­gar, vou con­cen­trando as min­has coisas no Mis­quili­nas — difer­ente das tan­tas colab­o­rações que fazia antes. Talvez seja mais fácil, talvez mais lógico, talvez não faça difer­ença nen­huma. Enfim, só fazendo pra saber, né. Então, vamos fazer. Este é o primeiro texto da Ópio no Café via Misquilinas.

- Primeiro de janeiro de dois mil e doze -

A porta rece­beu as chaves, com duas voltas para a grande e mais duas voltas para a menorz­inha. Abriu-se então uma sala escura, solitária. Nada ali deix­ava trans­pare­cer que hou­vera qual­quer tipo de vida naquele ambi­ente nos últi­mos tem­pos. As janelas rece­beram fechaduras enormes, vedando qual­quer pas­sagem de vento, brisa ou alma que dese­jasse fazer dali seu cam­inho para outro lugar do mundo. O silên­cio ine­scrutável que ren­dia aquela sala de estar era dilac­er­ante. Mas não ia ter muito jeito: morava soz­inho, por escolha própria, e teria que lidar com a real­i­dade: estava mesmo sozinho.

Acabara de voltar de uma viagem de férias, onde foi feliz quando já achava que esse tipo de sen­ti­mento não fora feito pra ele. Talvez para os sor­tu­dos, para os que igno­ram os absur­dos que nos envolvem, para os que escol­hem não ter que par­tic­i­par de tudo que acon­tece no mundo. Não para ele. Mas foi, e, sem saber, gos­tou tanto que agora teria que con­viver com um sen­ti­mento de não per­tenci­mento de seu próprio uni­verso, estran­hando que a vida que escol­hera anos antes talvez não fosse a que ele real­mente son­hara. E, para pio­rar, olhava para tudo e não sabia dizer o porquê das escol­has — e nem das dúvi­das que agora surgiam.

Tomou nas mãos o tele­fone e ten­tou fazer uma lig­ação. Sem sucesso. Pres­sio­nou outro nome, outro número, outra lig­ação que não se com­ple­tava. Man­dou men­sagens de celu­lar chamando os ami­gos para uma cerveja. Enquanto esper­ava resposta, abriu o com­puta­dor, procurou em todas as redes soci­ais algum sinal de vida. Nada. Era como se todos estivessem dor­mindo — e talvez fosse mesmo isso, dado que o dia era primeiro de janeiro de dois mil e doze, e os sobre­viventes dessa data cos­tu­mam levar algum tempo para perce­berem que, sim, ainda estão res­pi­rando, vivos, sãos e salvos. As horas pas­savam, nada acon­te­cia. As men­sagens de celu­lar? Nunca foram respondidas.

Aquele silên­cio sepul­cral o inco­mo­dava. Ligou a tele­visão, abriu a pasta de músi­cas no com­puta­dor e escol­heu um disco que o tirasse daquele estado semi-catatônico. Nada pare­cia fun­cionar bem. Aquele dia tão icônico descia como uma bola de espin­hos pela sua gar­ganta enquanto as horas engat­in­havam, sorum­báti­cas, sobre o tédio que preenchia a pequena casa. Pela varanda nada chamava atenção: a rua que sem­pre gan­hava elo­gios por ser calma desta vez o tirava do sério de tão parada. Pen­sou em sair sem des­tino, para rodar pelo bairro a fim de encon­trar qual­quer coisa que não fosse a cara fechada da sua solidão escol­hida. E então, o tiro de mis­er­icór­dia: uma chuva desco­mu­nal começou lá fora, e não restou opção além de ficar em casa.

A noite demorou a chegar, os bons pro­gra­mas de TV pare­ciam ter tirado férias junto com as out­ras pes­soas do mundo, e dois mil e doze, que se anun­ci­ava como um grande ano, de mudanças, de con­fir­mações, de cresci­mento, insis­tia em não começar. Resolveu dormir cedo, sem muitas alter­na­ti­vas à vista, é ver­dade, e quando já se prepar­ava para cer­rar os olhos depois de um dia que nunca exis­tiu, o tele­fone toca. Lá de longe, uma voz fem­i­nina sus­surra: “só liguei pra te dar boa noite”. Pou­cas palavras depois, desligou o apar­elho e se recos­tou na cama como se tivesse tido o mel­hor dia da sua vida. Era a feli­ci­dade, aquela que achava não ter sido feita para ele, apare­cendo sem avisar, de novo, e fazendo com que tudo fizesse sen­tido nova­mente. Dormiu em busca do dia dois de janeiro, o batidís­simo, mas rig­orosa­mente ver­dadeiro, primeiro dia do resto de sua vida.

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Todo mundo tem que ouvir

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Abel Tes­faye é um tal­en­toso moleque canadense de 21 anos. Mais do que tal­en­toso, é abu­sado, cria­tivo, pre­ten­sioso (no bom sen­tido da palavra) e, acima de tudo, abso­lu­ta­mente pro­lí­fico. Se eu tivesse que escol­her uma per­son­al­i­dade para descr­ever 2011, o músico que atua sob o nome The Weeknd cer­ta­mente seria o escol­hido. Echoes of Silence é nada menos que o ter­ceiro disco lançado por ele no ano pas­sado — em março, fez sua estreia com o incrível House of Bal­loons, em agosto colo­cou na praça o decen­tís­simo Thurs­day, e agora, no final de dezem­bro, fechou o ano com este belo disco, que com­pleta uma trilo­gia de dro­gas, melan­co­lia e veneno ide­al­izada por Tes­faye. Com seu R&B quase silen­cioso, de pou­cas cores e muitas som­bras e sul­cos, o The Weeknd entrou de sola na música con­tem­porânea e já tem seu lugar de destaque reser­vado. Enquanto a gente imag­ina o que ele aprontará em 2012, você pode fazer o down­load cli­cando na cap­inha acima e escu­tar Echoes of Silence, última parte de seu legado deix­ado em 2011.

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o último Ópio

É bem provável que este seja o último texto da col­una Ópio no Café pela Para­doxo. Desde 2006, a col­una trouxe uma imensa parte dos con­tos e crôni­cas que escrevi nos últi­mos anos. É uma pena, mas a Para­doxo está em vias de ser fechada e, por isso, há a prob­a­bil­i­dade bem grande de não pub­licar mais nada por lá.
O Mis­quili­nas deve ser mesmo o novo des­tino da col­una. Depois con­firmo e falo mais sobre isso. Por enquanto, fiquem com um tre­cho do (com certeza) último texto do ano, “Feliz, ano novo?”.

Esse clima de festa não com­bina comigo. Não com­bina com meus últi­mos dias, com as sen­sações que me vi exper­i­men­tando de uns tem­pos pra cá. Pud­era eu, ao invés de avançar cada vez mais rápido pra esse futuro inevitável, voltar no tempo para con­ser­tar todas as mer­das que fiz. Mas não posso. E tenho perce­bido dia após dia que não sei lidar bem com isso.

Para ler o texto com­pleto na Para­doxo é só clicar aqui e cair lá.

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